Geral no sistema hidráulico e pedal da embreagem

Os cilindros de embreagem da minha Defender, depois de quase 10 anos de uso, estavam vazando feito peneira. Além da meleca gerada pelo fluído hidráulico, a caixa do pedal já tinha visto dias melhores, pois sinais de ferrugem eram visíveis… Estava na hora de uma geral.

A ideia era simples: trocar os dois cilindros de embreagem, trocar a mangueira hidráulica do cilindro escravo e remover e reformar toda a caixa do pedal da embreagem, melhorando o que fosse possível…

Como quase todos os consertos em uma Defender, o que mais se precisa é tempo e paciência. Não há nada muito complexo nesse serviço, apenas é necessário cuidado no manuseio do fluído hidráulico, que pode manchar a pintura e é perigoso quando em contato com pele, olhos, etc. Fora isso, todos os procedimentos aqui descritos são abordados com maior detalhamento no manual de oficina da Defender. Não deixe de consultá-lo para complementação ou em caso de dúvidas.

Bom, vamos lá…

DRenar sistema hidráulico e remover componentes inferiores

O objetivo aqui é drenar todo o fluído hidráulico velho e remover o cilindro escravo e a mangueira hidráulica deste. Nada muito complicado, apenas soltar parafusos, remover os componentes e deixar tudo limpo. As dicas nessa parte são para usar duas chaves de boca para soltar a mangueira do suporte da carroceria (uma chave na porca do corpo da mangueira e outra para efetivamente soltar a porca) e depois de soltar as conexões hidráulicas sempre tampar as pontas dos canos com fita crepe.

Mangueirinha flexível transparente ligada numa garrafinha para drenar o fluído velho. Basta conectar a mangueirinha no parafuso sangrador do cilindro, abrindo-o em seguida com uma chave.
Cilindro mestre removido após soltar os dois parafusos de fixação. Apenas tome muito cuidado com a haste do cilindro, visível no “bocal” do cilindro na caixa seca: esta haste fica presa no garfo de embreagem por um clip plástico não muito confiável, que as vezes quebra. Se a haste soltar do clip e cair dentro da caixa seca, será um desafio recuperá-la
Detalhe do suporte da mangueira hidráulica junto a carroceria da Defender. Sempre use duas chaves de boca para soltar ou apertar as conexões hidráulicas.
Soltar cilindro de freio e remover HIDRO VÁCUO

O espaço onde se encontra a caixa do pedal da embreagem é muito apertado, sendo impossível remover a caixa completa sem criar espaço de alguma maneira. Alguns optam por soltar a caixa do pedal do freio da chapa corta fogo, mas isso compromete a vedação de fábrica ali.

Eu optei por soltar o cilindro mestre do freio do hidro vácuo e depois remover o hidro vácuo da caixa do pedal do freio. Não é preciso remover fluído hidráulico do freio nem nada, basta soltar os dois parafusos do cilindro, soltar as fixações das mangueiras rígidas na chapa corta fogo (para dar mobilidade ao conjunto) e puxar delicadamente o cilindro para trás.

Cilindro de freio afastado permite remover o hidro vácuo sem soltar a caixa do pedal do freio, preservando sua vedação junto a chapa corta fogo. Repare que as fixações plásticas (clips) das mangueiras de freio foram soltas, permitindo mover o conjunto sem mexer na sua parte hidráulica.

Depois de soltar o cilindro mestre de freio, temos que remover o hidro vácuo. O primeiro passo é remover as duas tampas laterais da caixa do pedal do freio, que dão acesso ao pino da articulação do pedal. Remova o contra pino e depois o pino da articulação.

Pino que fixa o pedal do freio no hidro vácuo: remova e descarte o contra pino e remova o pino, liberando o eixo do hidro vácuo do pedal.

Depois disso é só soltar as 4 porcas que fixam o hidro vácuo na caixa do pedal do freio e a mangueira rígida do vácuo (basta puxar o plug, não precisa soltar a abraçadeira da mangueira). Depois é preciso ir com jeitinho para remover o hidro vácuo, pois o espaço é limitado.

Depois de removido o hidro vácuo, proteja este e o cilindro de freio com fita crepe para evitar ingresso de sujeira.

Remover caixa do pedal da embreagem

Depois de removido o hidro vácuo existe espaço para remover a caixa do pedal da embreagem, processo que começa soltando o chicote elétrico, a mangueira rígida do fluído de embreagem do cilindro, as mangueirinhas de borracha dos esguichos de água do para brisas e afastando tudo mais que estiver pelo caminho. Anote a posição de tudo, caso tenha receio de não lembrar na hora de montar…

A caixa do pedal sai inteira, com cilindro ainda instalado. É preciso jeitinho e paciência, lembrando que existe um bom espaço sob o para-lama  onde a caixa pode ser “manobrada”.

Depois soltar e afastar tudo que estava pelo caminho foi removida a caixa do pedal, anos de sujeira acumulada e início de corrosão
Depois de anos de acúmulo de sujeira
Corrosão, terra e fluído hidráulico
Desmontar completamente conjunto do pedal

O conjunto da caixa do pedal da embreagem pode ser completamente desmontado, sem grandes dificuldades. Talvez a parte mais “complicada” seja a remoção do pequeno contra pino que existe no eixo que prende o pedal na caixa e na remoção das duas buchas do pedal.

O pequeno contra pino é removido com uso de um martelo e um pequeno punção (ou prego com a ponta cortada, como improvisado por mim), basta bater e extrair o contra pino para liberar o eixo. Já as buchas do pedal demandam um punção maior, que disperse melhor a energia sobre a borda da bucha que é de metal macio. Ao extrair essas buchas, algum dano certamente ocorrerá nas bordas, mas com jeitinho e cuidado (não bater repetidamente no mesmo lugar na bucha), tudo pode ser consertado com uma pequena lima depois.

Após desmontar lave, desengraxe, escove e lubrifique com WD40 tudo aquilo que será reaproveitado.

Todos os componentes completamente removidos/desmontados. Para remover as buchas da haste do pedal será necessário usar um punção pequeno, no meu caso o punção deu uma leve machucada na borda interna das buchas, mas consertei tudo com uma lima redonda fina. É importante remover o adaptador de rosca que está instalado no cilindro mestre removido do veículo, pois esse adaptador deverá ser instalado no novo cilindro de embreagem.
tratamento da ferrugem na chapa corta fogo

Na minha Defender eu já possuo um tratamento padrão que uso ao encontrar corrosão: remover toda sujeira e ferrugem grosseira, lixar toda ferrugem até chegar no metal, lixar toda tinta original que não será removida até ficar opaca para garantir a adesão com a tinta nova, limpar tudo com thinner (se estiver muito sujo antes limpo com água e sabão) e depois aplicar 3 demãos de tinta esmalte Hammerite. O primeiro demão mais fino e os demais mais espessos, cuidando sempre o intervalo de aplicação entre demãos.

Início de corrosão
Depois de lixado e limpo, pronto para pintura
Primeiro demão de tinta hammerite
Depois de três demãos, ficou bem bom!
Início de corrosão
Depois de lixado e limpo
Primeiro demão
Pintura pronta depois de três demãos
jateamento e pintura da caixa do pedal da embreagem

Embora a caixa e o pedal da embreagem não apresentassem corrosão profunda, resolvi enviar tudo para jateamento e pintura profissional em função dos “cantinhos” e espaços inacessíveis para lixar e pintar com ferramentas caseiras (vulgo lixa de papel e pincel).

Mandei tudo para o Fernando da Box 08 fazer aquele serviço no capricho e deixar tudo como se fosse novo. Valeu, Fernando!

Caixa do pedal sendo jateada…
…tampa…
E pedal também foram jateados
Depois de limpo, wash primer neles!
Depois aquele primer no capricho!
E depois de pintados
No detalhe
Ficou novinho em folha!
montar caixa do pedal da embreagem

Aqui não tem muito segredo: se remonta tudo na ordem inversa da desmontagem. No decorrer da montagem usei graxa de cobre em todas as partes móveis para garantir anos de lubrificação no conjunto, além de trocar alguns parafusos por novos de inox.

Todos os componentes do sistema: parte novos, parte reformados e o restante meticulosamente limpo
Dando início a remontagem, tudo é generosamente engraxado com graxa de cobre
Daí fica assim…
Depois de recolocar as buchas do pino do pedal (usei um toco de madeira para bater as buchas no lugar) e engraxar tudo
Depois de posicionar e alinhar os furos do pedal e caixa e colocar o eixo, optei por descartar o pino original e usar no lugar um contra pino de entornar para fixação
Do outro lado o novo bico de graxa
Depois de reinstalar o cilindro mestre no lugar. A posição de trabalho das chaves para apertar os parafusos que fixam o cilindro é chata, mas nada impossível… Apenas tenha paciência! Aliás, aplique um pouco de silicone (cor vermelha na foto) nas faces de contato entre o cilindro e a caixa do pedal, para impedir o ingresso de água.
recolocar caixa do pedal da embreagem

 

Optei por colocar a caixa do pedal “quase” no lugar antes de aplicar o silicone, pois é necessário movimentá-la muito e usar as mãos um bocado para fazê-la passar pela caixa do pedal do freio e seu cilindro. Se tivesse silicone ali seria uma tremenda meleca.
Depois de passar o silicone com o dedo, pronta para remontar.
Após alinhar a caixa com os furos da chapa corta fogo e prendê-la com seus parafusos, passei silicone extra em toda lateral da caixa e junto as pontas dos parafusos, para garantir a estanqueidade do conjunto. Depois de pronto me arrependi de não ter comprado silicone preto, pois na loja onde fui só havia silicone vermelho por um preço em conta.
regular pedal

Como o cilindro mestre foi trocado, é necessário regular o curso do pedal de embreagem, sendo um procedimento simples e descrito no manual de oficina da Defender. Basicamente se regula o pedal medindo a altura da base do pedal até o assoalho (sem o tapete), ajustando as duas porcas da haste do cilindro mestre para obter a altura de 140 mm indicada no manual, conforme figura abaixo:

Ajustando as porcas da haste do cilindro é possível alterar a altura do pedal até obter os 140 mm indicados no manual.
Montar componentes inferiores

Comece com a instalação da nova mangueira hidráulica no cilindro escravo, verificando se as roscas estão limpas antes de fazer a montagem. Depois reconecte a mangueira no suporte da carroceria e na linha hidráulica, sempre usando duas chaves de boca para trabalhar (uma chave “segura” as peças em posição e a outra chave dá o aperto).

Ao instalar o novo cilindro escravo na caixa seca, aplique silicone nas faces de contato para reduzir o ingresso de água e sujeita. A posição correta do cilindro é com o parafuso sangrador para cima, pois facilita a subida e escape das bolhas de ar.

Todo cuidado é pouco na hora de manipular a haste do garfo de embreagem, pois o clip que a fixa não é confiável. Garanta que ela se encaixe na base do êmbolo do cilindro, depois coloque os parafusos que prendem o cilindro na caixa seca.

sangrar sistema hidráulico

Existem diversos métodos e técnicas para sangrar o sistema hidráulico da embreagem, não sendo pretensão deste tópico discutir qual é o melhor ou o mais fácil. Vou apenas descrever o que fiz e que funcionou para mim, mesmo tendo feito todo procedimento sozinho.

Utilizei pouco mais de um metro de mangueirinha flexível transparente, devendo esta ficar bem justa no parafuso sangrador do cilindro escravo para impedir o ingresso de ar na linha. Também usei uma garrafinha PET de água, tendo feito um furo na tampa para passar a mangueirinha e deixar tudo firme.

Tenha a disposição pelo menos 1 litro de fluído hidráulico DOT 4, preferindo o uso de fluído novo de embalagens lacradas. Nunca reutilize fluído que já passou pela sistema hidráulico, sempre complete o nível com fluído novo.

Depois de conectar a mangueirinha no parafuso sangrador do cilindro escravo, abra o parafuso coisa de uma ou duas voltas. A seguir, deixe a mangueirinha o mais vertical possível (cuidando para não soltá-la do parafuso) e comece a colocar fluído hidráulico na ponta livre da mangueira usando uma seringa fina.

Demorou um bocado e exigiu bastante paciência, mas conseguir encher a mangueirinha com fluído hidráulico, sem deixar bolhas de ar na mesma. Depois coloquei uns 100 ml de fluído na garrafinha PET, passei a mangueirinha pelo furo da tampa, tentando evitar o ingresso de ar na mangueirinha. Garanta que a ponta da mangueira chegue no fundo da garrafa.

Com o cilindro escravo pronto para o processo de sangria, as atenções se voltam para o cilindro mestre, o qual enchemos o reservatório até quase a borda com fluído novo, fechando a tampa a seguir. Depois vamos até o pedal da embreagem, pressionando o mesmo até o fim lenta e gradualmente com a mão.

O reservatório do cilindro mestre esvazia muito rápido, coisa de duas ou três  pressionadas do pedal são suficientes para acabar com o fluído e fazer ar ingressar na linha. Portanto verifique constantemente o nível, completando sempre que necessário.

Em algum lugar eu li que, além de pressionar o pedal lenta e gradualmente, devemos esperar coisa de 5 segundos entre cada pressionada. Conforme o pedal é pressionado, observe o fluxo de fluído hidráulico pela mangueirinha até a garrafa. Esqueci de dizer, mas eu removi o capô da minha Defender, o que facilitava a visão da mangueirinha.

Na segundo ou terceira pressionada do pedal já será possível ver o fluxo de fluído com bolhas de ar. Mantenha o procedimento até que as bolhas desapareçam e apenas fluído circule pela mangueira. Não esqueça de verificar o nível do reservatório, de pressionar o pedal lenta e gradualmente e de aguardar 5 segundo entre cada pressionada.

Por duas vezes eu deixei o fluído acabar no reservatório e tive que fazer tudo, tendo consumido pouco mais de 500 ml de fluído em toda a função. No momento que não houver mais bolhas de ar na mangueira, feche o parafuso sangrador do cilindro escravo, cuidando para não forçar demais a rosca do cilindro e sem desconectar a mangueira do parafuso.

Com parafuso sangrador fechado, verifique o nível do fluído no reservatório que deve estar entre 10 e 15 mm abaixo da borda. Feche a tampa do reservatório e teste o pedal de embreagem, que deverá funcionar perfeitamente. Caso o pedal não tenha atuação, esteja “esponjoso” ou mesmo não retorne para a posição após soltá-lo devemos refazer a sangria, pois ainda há ar na linha hidráulica.

Se o pedal estiver funcionando perfeitamente, basta desconectar a mangueirinha do parafuso sangrador do cilindro escravo, conferindo se o mesmo está bem fachado. Após recoloque a capinha de borracha que protege a ponta do parafuso sangrador.

Mangueirinha transparente ligada no parafuso sangrador, subindo em linha reta até a garrafinha com fluído.
Garrafinha com fluído hidráulico e mangueirinha. Deixei tudo bem fixo e vertical, ficando a curva superior da mangueira e o nível da garrafinha visíveis da lateral junto a porta do motorista, de onde eu pressionava o pedal com a mão.
montar hidro vácuo e cilindro de freio

Depois de concluir a parte hidráulica e pedal da embreagem, restou montar tudo que foi solto e/ou removido para criar espaço de trabalho. Começando com o hidro vácuo, o procedimento de instalação é o inverso da remoção, sem nenhum segredo. Apenas seja criterioso ao usar um novo contra pino para travar o pino do eixo do pedal de freio.

Após alinhar os furos do pedal de freio com a haste do hidro vácuo e passar o pino do eixo, utilize um contra pino novo para travá-lo. Depois é só entornar as pontas e está pronto.

Depois de reinstalar o hidro vácuo, recoloque o cilindro de freio em posição, cuidando para que o pino do hidro vácuo encaixe no centro da haste do cilindro. Depois de posicionado, basta colocar e apertar as duas porcas que fixam o cilindro no hidro vácuo e fixar todos os clips das linhas hidráulicas do freio novamente nos seus lugares.

Depois de encerrar o sistema de freio, reconecte chicotes, mangueiras de água dos esguichos dos limpadores de para brisas e tudo mais que foi solto no início.

finalizando

Depois de tudo montado, revise com uma lanterna tudo que foi mexido, sem pressa. Procure por fios soltos, parafusos faltando, etc. A ideia é ter certeza de que nada, absolutamente nada foi esquecido.

Ligue o motor e primeiramente pise no freio, garantindo que o mesmo não apresenta anomalias. Pise na embreagem, engate algumas marchas. Se tudo estiver ok, mova a Defender para frente e para trás, mesmo que alguns metros. Sinta a embreagem e novamente verifique os freios.

Desligue o motor, pegue a lanterna e novamente verifique tudo, principalmente vazamentos em toda extensão do circuito hidráulico da embreagem. Se tudo estiver ok, saia com a Defender para um test drive por ruas tranquilas e sem movimento.

Teste o engate das marchas, altura do pedal da embreagem e o sistema de freios. Após retornar, novamente verifique vazamentos e confira o nível do fluído no reservatório, aliás, faça isso por alguns dias após voltar a usar o veículo.

4 respostas para “Geral no sistema hidráulico e pedal da embreagem”

  1. Cara,
    Você parece muito comigo.
    Tive uma defender 110 por vinte anos e ela foi lavada menos de vinte vezes!
    Hoje tenho outra defender 110 há três anos, só tomou dois banhos.
    Muito bom seu cuidado e dedicação.

    1. Obrigado, Lívio! É um caminho sem volta depois que a gente pega gosto por consertar e conservar a própria viatura! Além do dinheiro economizado e do aprendizado, chega a ser terapêutico o preciosismo! Ou é loucura mesmo… hehehe

      Grande abraço e obrigado pela mensagem!

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